quarta-feira, 12 de maio de 2010

Lição de Vida


A importância da ONG Viver para crianças com câncer

“A gente se torna uma família, eu mesma tenho os pacientes daqui como meus filhos”, contou a cozinheira Rosana

A organização Viver que atua na cidade de Londrina há nove anos, surgiu a partir de um trabalho voluntário de recreação no Hospital do Câncer. Desde então, alguns idealizadores do projeto observaram que havia a necessidade de acolher e atender melhor as crianças e familiares. “Muitos deles não possuíam dinheiro para comprar alimentação, e não tinham um espaço pra ficar. Eles também precisavam de medicamento e a família não tinha condições de fornecer, foi ai que vimos que precisávamos fazer alguma coisa para dar o mínimo de carinho e dignidade a eles”, contou Dorian Guerra, uma das fundadoras da ONG.

A organização que começou com um espaço pequeno apenas para as crianças terem onde ficar, já que segundo a assistente social Maria Joreni, estima-se que cerca de 60 a 70 % das crianças são de municípios vizinhos, atualmente possui um espaço mais amplo e conta com um número maior de pacientes. “Por semana existe um fluxo aproximado de 90 a 100 pessoas, mas isso contando pacientes, pais, funcionários e voluntários”, disse Maria.

Para a organizadora um dos motivos que fez com que o número de pacientes aumentasse, foi a parceria feita recentemente com o Hospital Universitário de Londrina (H.U). “Com essa parceria assumimos cerca de 300 pacientes, e mesmo que nem todos desfrutem dos benefícios que a ONG oferece, como auxílio odontológico, cestas básicas, roupas, e medicamentos. Devido a grande procura que estamos tendo, procuramos ter uma constância, e abrimos de segunda a sexta para a população”, contou Dorian.

Para sustentar todo o projeto, a organização que atende crianças de 0 a 21 anos com todos os tipos de câncer, desde que dependam do Sistema Único de Saúde (SUS), conta com vários parceiros que contribuem das mais diversas maneiras, o principal deles é o Instituto Ronald McDonald, e através destes recursos foi possível a ampliação da casa que hoje conta com vários quartos para que os pacientes possam pernoitar na ONG durante o tratamento no hospital. Além disso, possuem um quarto isolado, para o uso exclusivo de crianças que vão fazer transplante de medula óssea. “O Jean, 3 anos, por exemplo, está dormindo aqui há 21 dias para fazer seu tratamento de rádio terapia ”, contou Dorian.

Na avaliação da organizadora, o motivo pelo qual a ONG deu certo, é porque a base da instituição está alicerçada no amor a Deus. “Falo que antes desse projeto nascer no nosso coração, ele nasceu no coração de Deus. Ele através de cada um de nós, nos usa como veículo para aprender, e pra servir esse pessoal, por isso digo que quem é voluntário é privilegiado”.

A organizadora explicou ainda que, com exceção de quatro funcionários, toda a organização é composta por voluntários. Além de ajudarem com carinho, dedicação, e trabalho, muitas vezes, contribuem financeiramente para a ONG.

Um dos problemas enfrentados pela organização é que existem pessoas que usam o nome da instituição para pedir ajuda financeira e vender produtos como sacos de lixo e sacolas. “Muitas pessoas tem vendido coisas em nosso nome, e isso não existe, não fazemos telemarket, por favor, não acreditem, pois não é verdade”, alertou Dorian.

Segundo uma das fundadoras, caso alguém queira contribuir de alguma forma para a ONG, o mesmo deverá procurar a organização que atende no endereço R. Lucilla Ballalai, 391, telefone (43) 3343- 0044, e tem como e-mail ongviver@sercomtel.com.br. Dessa forma antes de contribuir, a pessoa poderá conhecer a idoneidade da ONG .

Histórias de luta e superação

Segundo Dorian, existem muitas histórias que a marcaram durante os 13 anos em que atua junto a crianças com câncer. “São tantas histórias que daria um livro, me veio à mente agora a de um menininho que tinha tumor na cabeça. Ele não comia, não conseguia falar bem, mas quando ele vinha para ONG ele se transformava. Quando ele entrava pelo portão da organização, ele começava a viver, a mãe dele dizia até que essa casa era mágica”, contou Dorian.

Histórias de ânimo é o que não faltam na organização, que parece realmente ser uma grande família. Mesmo passando por situações complicadas, o que se vê na casa é alegria e determinação. Dorian até alerta que na ONG eles não querem tristeza, apenas alegria, e vida. “Está ai o porquê da organização se chamar Viver”, afirmou a Dorian.

Outro sentimento que está em evidência na casa, é a cooperação. Marcos, pai de Alexandre, 8 anos, que está internado no Instituto de câncer de Londrina (ICL), ajuda no que pode. Dias atrás fez até uma campanha com os familiares para arrecadar lençóis e toalhas de banho para organização. “Se tivesse que falar alguma coisa sobre a ONG, diria que não consigo viver sem a organização Viver”, contou Marcos.

A ONG é ainda muito importante na vida das crianças e dos familiares dos pacientes. Para Olívio Rocha, 49 anos, a organização é tudo, pois além de dar auxílio como cestas básicas, leite, alimentação, e roupas, ela dá algo ainda mais importante, carinho. “Quando minha filha tinha dois anos descobrimos que ela tinha câncer no sangue. O HU nos indicou a ONG, e aqui estamos há dois anos. Aqui a gente recebe um atendimento de primeira, por isso digo que a organização é tudo, é meu ponto de apoio, meu braço direito”, contou Olívio.

Valdemira de Souza, 38 anos, concordou com o marido Olívio, uma vez que disse que sem a ONG sua vida seria bem mais difícil. “Parei de trabalhar para cuidar da Fabi, porque nada como o carinho de mãe, e sem os auxílios da organização, passaria um aperto”, desabafou.

Valter Aparecido de Moura é outro pai que freqüenta a ONG desde que descobriu que sua filha Tamara, 13 anos, tinha câncer. Aparecido disse estar satisfeito com o tratamento que recebe da organização. “Venho aqui há oito meses, e eles me ajudam demais, e isso é muito bom. Minha filha ama vir aqui porque é como se fosse a casa da gente. Eles são praticamente a minha família, se não fosse esse lugar estaria agora no hospital”, disse Moura.

Rosana Maria também contou um pouco da sua experiência. A cozinheira da organização participa do projeto desde seu início, em 2001. Ela conheceu Dorian na recreação do hospital do câncer, quando sua filha fazia tratamento. “Nunca imaginei que criança pudesse ter câncer, então, acabei descobrindo que a minha filha sofria com a doença meio tarde”, disse Rosana.

A cozinheira disse que a recreação era muito importante, pois dava ânimo a ela e a filha. “Toda terça feira eles iam lá e faziam várias atividades, eu aprendi com os voluntários mais coisas sobre crochê e como tive que parar de trabalhar para cuidar da minha filha, acabava fazendo o artesanato e vendendo para os médios e as enfermeiras”, disse Rosana.

A cozinheira passou por muita necessidade e foi despejada da casa. “Foi uma época muito complicada para mim, perdi meu marido, depois minha filha, depois minha mãe, então, estava no fundo do poço e a ONG me ajudou e me ajuda a Viver”, contou a cozinheira emocionada.

Mas Rosana não desanima, é até chamada carinhosamente pela irmã de Fortaleza, devido a força de vontade que ela tem de lutar pela vida. “Atualmente trabalho como cozinheira, porque minha filha gostava muito da minha comida. A cada dia que passa me lembro dela, do rosto dela, imagino como ela estaria se estivesse viva, e sonho constantemente com ela. Mas, sei que a vontade de Deus foi feita”, contou a cozinheira.

Rosana ressaltou ainda que a ONG é de fundamental importância e que se a mesma existisse quando ela passou pela situação de ter uma filha com câncer, o atendimento seria mais fácil, devido aos auxílios e carinho que a organização oferece. “As pessoas recorrem a gente não só pelos benefícios, mas também pelo carinho e amor que damos as crianças. Aqui a gente se torna uma família, eu mesma tenho os pacientes daqui como meus filhos”, disse a cozinheira.

Repórter Isabella Grade


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